Tuesday, January 24, 2012

Faz muito tempo que não escrevo, como sempre...
A todo e a cada dia a vida e seus percalços me surpreendem...
É incrível como racionalmente tendemos a não acreditar na aproximação dos extremos, porém cada vez mais noto como eles sempre estão andando juntos, de mãos dadas, mas sem risco de se fundir, porque cada um sabe o que é.
Olho para as pessoas e para mim mesma... me reconheço um pouquinho em cada um. Parece besteira, banalidade, mas amo as pessoas ao mesmo tempo que as odeio. Sinto um grande amor quando vejo cada um em seu caminho, sem muita certeza de nada, pegando ônibus, andando pelas calçadas, solitários em seus carros e em seus mundos, com seus pertences que acreditam que lhes dizem tanto respeito quanto o que realmente são essencialmente.
Tenho carinho pelo modo como as pessoas movem suas mãos para pegar seus RGs, seu óculos, ou qualquer outra coisa. Elas pegam esses pertences com tanto apego e sensação de pertencimento... objetos, coisas que dizem um pouco sobre alguém.
E vejo a humildade... a humildade na submissão à situação suprema do viver e aqui estar. O olhar das pessoas frente às outras... tudo me toca profundamente.
E só me toca porque me sinto tão a par disso tudo... tão a par. Não consigo imaginar que alguém possa me olhar como olho os outros. Não sinto que sou especial, nem importante, nem nada... quase nem humana, como se não fosse digna de merecimento de cousa alguma.
Prefiro viver a vida dos outros com meu olhar, de fora. O olhar que tenho a mim mesma quando sonho. O olhar da Kika que me dizia infinitas vezes mais do que todas as palavras possíveis e imagináveis.
É a sensação que habita em mim que me surpreende, move tudo na minha frente e, enfim, tudo parece belo por alguns instantes... até alguém me mostrar, sem dó nem piedade, a dura 'realidade' da crueldade que vive em nós... que vive de nós...
De todo modo, em cada gesto minúsculo eu vejo um carinho, um momento, um segundo de infinitos e milhares, que merece ser apreciado... então aprecio... em silêncio. Porque assim sou. O barulho que faço aos outros é somente reflexo da bagunça desordenada do meu silêncio escuro, extremamente escuro. Porque meu silêncio também é sensação, e somente sensação... despensa todos os demais sentidos...
Mesmo nas situações mais repugnantes e de dor, acho beleza... no fundo, no fundo, no fundo... acho beleza...
Encontro beleza na saudade do que já foi e parece já não mais ser, mas que continua existindo enquanto eu existir... mas devo confessar que não sou tão otimista quanto esse texto possa parecer... tenho tendências extremas a olhar tudo como quem já sabe do fatídico fim e pode até ser que vez ou outra me sabote pra que ele de fato aconteça, como alguém que precisa provar pra si mesmo que em alguma vez esteve certo na vida... e me decepciono. Sempre me decepciono. Com o outro, comigo e com o outro em mim que não consegue nunca ganhar a voz que possivelmente merece. Este outro em mim me decepciona por não conseguir ser mais forte do que eu e de me mostrar minha verdadeira face.
Mas tudo bem, porque isso é percurso de toda uma vida, seja lá o que signifique... afinal, cada um vive tempos diferentes, tanto cronos quanto kairós...
Não tenho um fim pro texto, porque não tenho um fim em si... não sei o que concluir e nem como remeter o leitor imaginário àquilo que se diz por "fim"... porque é inconclusivo, interminável, infinito... e espero que a vida tenha criatividade o suficiente pra me surpreender com inovações, mesmo que nos detalhes, de histórias que possivelmente vão se repetir sempre... pra mim e pro próximo...

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