"Naquele dia eu percebi que eu não era livre, que eu ainda era sua mulher obediente.
Eu fazia tudo que você no fundo queria.
Tudo que sua perversão pedia; tudo que faz mulher de cafajeste
Tudo que cafajeste quer.
Eu era objeto de um jogo onde você não fazia nada, mas mandava em tudo.
Daí eu pensava “não, eu não posso amar um homem que não é desamparado como eu”
E na churrascaria eu via você com aquela camiseta azul de royal e pensava “esse homem tem que morrer, vai morrer”
Daí, de repente, parei de te amar. Eu parei de te amar assim de repente, como um relógio pára. Às 3:45 em ponto da tarde eu parei de te amar e comecei a amar outro homem.
Aí eu não tinha mais pena nenhuma de você, e via até com prazer você sofrendo, e quando eu gozava com outro homem eu pensava nesse momento "aquele cão está no meio fio" e lembrava das pobres mulheres arrasadas que eu conheço. Lembrava da minha mãe, da minha avó, da minha tia. Eu vinguei as mulheres que os homens destroem. "
Trecho do filme: Eu sei que vou te amar, de Arnaldo Jabor
Trecho de textos e textos de um blog fantástico: http://umamoratrevido.blogspot.com/
"Olá, onde estás? Eu: Vou ao cinema. Não me perguntas com quem estou, com quem vou. Espero que o faças e o silêncio paira sobre nós como um albatroz contra o vento, ocupa espaço, incomoda. Da minha parte, porque imagino que não o queiras saber; da tua, porque achas que não tens o direito de mo perguntar. Imagino que estejas acompanhada, mas claro que isso não é nada comigo… Eu, surpreendida pela suposição, a marear pelas ondas da desconversa, à procura, no horizonte das palavras difíceis, pela pergunta que gostaria de ter ouvido. Que pena, que não te aches no direito de perguntar, digo, significa que o inverso também é verdadeiro: que não me achas no direito de TO perguntar. (com quem estás, de onde vens, para onde vais). Mas podes perguntar com quem estou que eu respondo, não te tenho segredos. Ele, Não, deixa lá, diverte-te. Hesito. Fica sabendo que estou comigo mesma: sozinha (estúpida, não podias tê-lo deixado na dúvida?)."
"Que se pode amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo e que o coração (esse caixote onde depositamos o lixo não reciclado do Amor à falta de sítio melhor) é uma mansão cheia de quartos embolorados, à espera de limpezas renovadas de Primavera e de gelosias abertas. Mas não. O coração é um espaço pequenino e claustrofóbico, um metro quadrado de elevador, se tanto. Quando cheio, os que lá estão empurram-se, enquanto se cheiram com desagrado e se olham desconfiados. Dois no coração e já há excesso de carga, a porta não fecha e não se vai a lado nenhum, nem para baixo nem para cima. Amo-te. Mas também a ele. E não: não existe isso de um coração dividido, como um quarto camarata, com beliches de ambos os lados, ou uma suíte real onde todos caibam. Não existe um que fique com o lado que leva o oxigênio, nem outro com o lado que o traz. De nada nos vale, apelarmos às fronteiras certas da anatomia: amar a dobrar é apenas um desencontro triste com o que na altura se ama menos e uma alegria fortuita e pouco serena com o que então se ama mais. Não há como vos amar aos dois: não quero os teus braços, nele, nem o sorriso dele em ti. Quando te toco, fico aquém porque não me entrego inteira; quando vacilo sobre ele, preciso-te com o desespero dos náufragos exauridos. E, no meio, o meu corpo indeciso que pende à vez, (in)fiel de balança, a braços com uma vontade por cumprir, como a que nasce das carícias incompletas. Este corpo que parece não se decide, tempestuoso, enjaulado, como um suicida que não consiga escolher em que poço mergulhar, de que ponte se atirar. Amar os dois mas, no fundo, não amar nenhum, ninguém, nem sequer a mim própria (muito menos a mim própria)."
"Não te amo mais porque não te posso ter e porque que foram demais, as palavras gastas na camuflagem de guerra. Teriam bastado cerca de três: Amor. Sexo. Fim. Não necessariamente ao mesmo tempo nem, obrigatoriamente, por esta ordem. Ficamos, então, assim e eu prometo não mais confundir o meu desejo animal com a tua solidão. E que me releves o atrevimento, afinal, todos sabemos: o Amor é a brincadeira preferida dos adultos."
"Agora já não me custas, sais-me barato, praticamente pechincha e estás sempre aqui (pesarás a outra qualquer). E eu, com o riso a pender-me ao canto da boca, porque, afinal, o Amor pode ser assim: uma onipresença saborosa que me permite lamber-te a nuca abandonada, enquanto espero para pagar na fila do supermercado e tu te encontras a milhas."
"Não me telefonas e eu não há meio. A tristeza é um corpo estranho que trago em mim porque tu não, como uma bala perdida que se me alojasse na omoplata e me incomodasse nas noites úmidas ou cientistas extra-terrestres que me tivessem implantado um chip à sorrelfa no cérebro, a comandar-me à distância a existência vegetativa. Não me telefonas e o dia sempre cinzento, de uma névoa elástica que não se rompe e vai resistindo à insistência perfurante do sol de Junho. E eu, como um domingo sem companhia ou um parque de diversões fechado para obras, porque nada me dizes."
"Aparentemente é exatamente isso que tu és, se calhas a ser traduzido diretamente e não mediado por ti. Uma pedra e eu sobre ela vento. Cais ao poço. És-me uma pedra no fundo do meu poço. Eu não queria amar-te uma pedra."
"Nem que me ampares, nem que me ajudes a atravessar-nos nos locais assinalados: uma bengala e um cão, é só o que te peço."
Eu fazia tudo que você no fundo queria.
Tudo que sua perversão pedia; tudo que faz mulher de cafajeste
Tudo que cafajeste quer.
Eu era objeto de um jogo onde você não fazia nada, mas mandava em tudo.
Daí eu pensava “não, eu não posso amar um homem que não é desamparado como eu”
E na churrascaria eu via você com aquela camiseta azul de royal e pensava “esse homem tem que morrer, vai morrer”
Daí, de repente, parei de te amar. Eu parei de te amar assim de repente, como um relógio pára. Às 3:45 em ponto da tarde eu parei de te amar e comecei a amar outro homem.
Aí eu não tinha mais pena nenhuma de você, e via até com prazer você sofrendo, e quando eu gozava com outro homem eu pensava nesse momento "aquele cão está no meio fio" e lembrava das pobres mulheres arrasadas que eu conheço. Lembrava da minha mãe, da minha avó, da minha tia. Eu vinguei as mulheres que os homens destroem. "
Trecho do filme: Eu sei que vou te amar, de Arnaldo Jabor
Trecho de textos e textos de um blog fantástico: http://umamoratrevido.blogspot.com/
"Olá, onde estás? Eu: Vou ao cinema. Não me perguntas com quem estou, com quem vou. Espero que o faças e o silêncio paira sobre nós como um albatroz contra o vento, ocupa espaço, incomoda. Da minha parte, porque imagino que não o queiras saber; da tua, porque achas que não tens o direito de mo perguntar. Imagino que estejas acompanhada, mas claro que isso não é nada comigo… Eu, surpreendida pela suposição, a marear pelas ondas da desconversa, à procura, no horizonte das palavras difíceis, pela pergunta que gostaria de ter ouvido. Que pena, que não te aches no direito de perguntar, digo, significa que o inverso também é verdadeiro: que não me achas no direito de TO perguntar. (com quem estás, de onde vens, para onde vais). Mas podes perguntar com quem estou que eu respondo, não te tenho segredos. Ele, Não, deixa lá, diverte-te. Hesito. Fica sabendo que estou comigo mesma: sozinha (estúpida, não podias tê-lo deixado na dúvida?)."
"Que se pode amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo e que o coração (esse caixote onde depositamos o lixo não reciclado do Amor à falta de sítio melhor) é uma mansão cheia de quartos embolorados, à espera de limpezas renovadas de Primavera e de gelosias abertas. Mas não. O coração é um espaço pequenino e claustrofóbico, um metro quadrado de elevador, se tanto. Quando cheio, os que lá estão empurram-se, enquanto se cheiram com desagrado e se olham desconfiados. Dois no coração e já há excesso de carga, a porta não fecha e não se vai a lado nenhum, nem para baixo nem para cima. Amo-te. Mas também a ele. E não: não existe isso de um coração dividido, como um quarto camarata, com beliches de ambos os lados, ou uma suíte real onde todos caibam. Não existe um que fique com o lado que leva o oxigênio, nem outro com o lado que o traz. De nada nos vale, apelarmos às fronteiras certas da anatomia: amar a dobrar é apenas um desencontro triste com o que na altura se ama menos e uma alegria fortuita e pouco serena com o que então se ama mais. Não há como vos amar aos dois: não quero os teus braços, nele, nem o sorriso dele em ti. Quando te toco, fico aquém porque não me entrego inteira; quando vacilo sobre ele, preciso-te com o desespero dos náufragos exauridos. E, no meio, o meu corpo indeciso que pende à vez, (in)fiel de balança, a braços com uma vontade por cumprir, como a que nasce das carícias incompletas. Este corpo que parece não se decide, tempestuoso, enjaulado, como um suicida que não consiga escolher em que poço mergulhar, de que ponte se atirar. Amar os dois mas, no fundo, não amar nenhum, ninguém, nem sequer a mim própria (muito menos a mim própria)."
"Não te amo mais porque não te posso ter e porque que foram demais, as palavras gastas na camuflagem de guerra. Teriam bastado cerca de três: Amor. Sexo. Fim. Não necessariamente ao mesmo tempo nem, obrigatoriamente, por esta ordem. Ficamos, então, assim e eu prometo não mais confundir o meu desejo animal com a tua solidão. E que me releves o atrevimento, afinal, todos sabemos: o Amor é a brincadeira preferida dos adultos."
"Agora já não me custas, sais-me barato, praticamente pechincha e estás sempre aqui (pesarás a outra qualquer). E eu, com o riso a pender-me ao canto da boca, porque, afinal, o Amor pode ser assim: uma onipresença saborosa que me permite lamber-te a nuca abandonada, enquanto espero para pagar na fila do supermercado e tu te encontras a milhas."
"Não me telefonas e eu não há meio. A tristeza é um corpo estranho que trago em mim porque tu não, como uma bala perdida que se me alojasse na omoplata e me incomodasse nas noites úmidas ou cientistas extra-terrestres que me tivessem implantado um chip à sorrelfa no cérebro, a comandar-me à distância a existência vegetativa. Não me telefonas e o dia sempre cinzento, de uma névoa elástica que não se rompe e vai resistindo à insistência perfurante do sol de Junho. E eu, como um domingo sem companhia ou um parque de diversões fechado para obras, porque nada me dizes."
"Aparentemente é exatamente isso que tu és, se calhas a ser traduzido diretamente e não mediado por ti. Uma pedra e eu sobre ela vento. Cais ao poço. És-me uma pedra no fundo do meu poço. Eu não queria amar-te uma pedra."
"Nem que me ampares, nem que me ajudes a atravessar-nos nos locais assinalados: uma bengala e um cão, é só o que te peço."


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